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CAHIERS DU CINEMA 01
APONTAMENTOS SOB O IMPACTO DO CINEMA DE HICKOX EU DISSE: HICKOX
01 27/05/2004
O Donald Siegel da nova geração tem nome e filma bem para cacete: Anthony Hickox, um inglês nascido em 1964, filho do diretor Douglas Hickox e da montadora Anne V. Coates (O Cão Dos Baskervilles e O Mestre Da Vingança). O IMDB assim se refere ao estilo (original e fascinante) de Anthony: "Has a unique visual style. Often uses a dual-focus technique in which one person's face would take up most the screen in profile, with another person shown on the other half of the screen in the background." Me orgulho de ter na minha (cada vez mais gorda) videoteca cópias perfeitas de: A Última Missão (Last Run) - uma pequena obra-prima, com Armand Assante em ótima performance. Warlock 2 - O Armagedon (Warlock 2) - o melhor da série Operação Nervos De Aço (Full Eclipse) A Passagem (Waxwork) Inferno Na Terra - Hellraiser 3 (Hellraiser: Hell On Earth) O Preço Do Desejo (Payback) Contaminação (Contaminated Man) Confesso que fiquei irritado de gostar tanto de A ÚLTIMA MISSÃO, na primeira vez que vi. Foi a mesma sensação que tive com os notáveis "Viver e Morrer em Los Angeles", de William Friedkin, "Especiais Efeitos", de Larry Cohen, "A Marca da Corrupção", de John Flynn, e outros; depois de me dei conta que somente filmes especiais (e que, às vezes, sentimos vergonha de admirar - os chamados "guilty pleasures"; às vezes uma pequena inveja não confessada do diretor pouco valorizado) provocam tal reação. Hickox me devolveu o prazer do "cinema do corpo".

DVD duplo dos filmes de estréia de Hickox: A PASSAGEM e WAKWORK II - PERDIDOS NO TEMPO.
02 28/07/2004
Apos uma ou outra pequena decepção (CONTAMINAÇÃO mostrou que Hickox não pode fazer filmes com dinheiro em excesso e roteiros medianos) me deparei com mais uma epopéia do diretor com o pior ator do mundo, Dolph Lundgren, chamada CONSPIRAÇÃO FATAL (que o material publicitário da distribuidora Califórnia, registra com obra de um tal de John Putch). Por sorte descobri num trailer de um dos inúmeros filmes de ação da distribuidora o nome de Hickox como ator (?) do referido filme. Naquele arrazoado de nomes que apareçam encavalados num único letreiro no final dos trailers, fiz questão de fazer um stop-motion, e descubro o verdadeiro nome do diretor: Tony Hickox. Coloquei o nome do filme no meu caderno de anotações e numa das "viagens prospectivas" aos Messias do centrão, comprei o vídeo. FILMAÇO! FILMAÇO! FILMAÇO! Hickox é um diretor extraordinário. Há uma seqüência digna de qualquer antologia do cinema de ação, que deveria ser usada (ao lado dos 12 minutos finais de CÃO BRANCO, de Samuel Fuller) como material de trabalho e análise em qualquer faculdade de cinema. Militares invadem a casa do piloto da Força Aérea Dolph Lundgren no intuito de matar sua família inteira. A cena é noturna com luzes de helicópteros invadindo as janelas. Vinte soldados armados até os dentes invadem a casa pelas janelas, um a um. A sinfonia que se instaura entre vidros estilhaçando, milhares de balas de metralhadora, ossos quebrando, móveis arrebentados, gritos de mulheres, berros de soldados, motores de helicóptero; e todas as cenas filmadas com lentes mais fechadas que a 50 mm....... Uma montagem delirante (se não estou enganado realizada pelo irmão de Hickox, ambos filhos da montadora de "Lawrence da Arábia"), precisão milimétrica de cortes (na certa realizados em moviola "obsoleta"), enquadramentos justos, etc. É o milagre dos milagres, cinema moderno que nasce, fotograma por fotograma, da gramática mais clássica e, surpresa das surpresas, Hickox consegue fazer Lundgren interpretar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! EU DISSE: INTERPRETAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Não bastasse, comprei anteontem HERLLRAISER III: INFERNO NA TERRA. Nunca fui um fã extremado das baitolices de Clive Baker, mas INFERNO DA TERRA é filme másculo, sem firulas! INFERNO DA TERRA é um deslumbre; talvez, o mais surrealista dos filmes comerciais recentes. É de uma audácia impressionante. Ouso dizer, é um George A. Romero ainda mais sofisticado. E aquele zumbi com uma câmera na testa: o que é aquilo?????? ANTHONY HICKOX ainda vai ser alçado à (real) condição de mestre.

03 29/07/2004
Acabo (3.45 da madrugada) de assistir CONSEQUENCE, de Anthony Hickox, com Armand Assante, cujo DVD Região 1 comprei da CD-Point. Para começar, pensei que depois de VIVER E MORRER EM LOS ANGELES nunca mais fosse ver uma perseguição de carros tão (ou mais) espetacular e original.... Acabei de ver! CONSEQUENCE alça Hickox ao panteão dos grandes diretores de filme de ação da história: como diria Sam Fuller, film is action: emotion, emotion, emotion.... Hickox recicla Fritz Lang, Don Siegel, Joseph Lewis, William Friedkin, Brian de Palma, etc, etc, etc..... e ainda por cima inova o tempo inteiro... Poucas vezes vi na vida certos cacoetes do cinema contemporâneo usados com ética e inteligência (talvez apenas em LÚCIA E O SEXO). Hickox, como todo grande poeta do cinema de ação (e do corpo) manda a verossimilhança para o espaço em nome das sensações. Ele estica o tempo, cruza elipses e - assim com os doze minutos finais de CÃO BRANCO, de Fuller - trabalha todos os recursos mais nobres da linguagem cinematográfica em função da emoção. Não tenham dúvida, se a MOSTRA DO CINEMA EXTREMO sair, Hickox vai ser um dos convidados de honra. E mais, se eu confirmar que nenhuma distribuidora comprou (ou vai lançar) o filme para DVD no Brasil, eu programo no COMODORO antes do final do ano.

04 14/08/2004
Acabei de assistir pela quarta vez "A ÚLTIMA MISSÃO" (Last Run) numa cópia em vídeo (o filme saiu no Brasil somente em vídeo). O filme foi exibido sábado, 14 de agosto, às 23 horas, na TV Globo. Há muitos anos, rever um filme - há tão pouco tempo - não me dava tanto prazer. Eu precisava ter a certeza de que não estava enlouquecendo em achar Hickox o grande herdeiro (no cinema contemporâneo) de Fritz Lang e de estar tão curioso por rever um filme pela enésima vez. Rever A ÚLTIMA MISSÃO me lembrou a revisão de todos os Mabuses, de M, de QUANDO DESCEM AS SOMBRAS e outras pérolas do mestre. Eu já encomendei meu DVD, americano, pela CD-POINT (brasileira), a 47,31 reais.
http://www.cdpoint.com.br
A ÚLTIMA MISSÃO, com suas inúmeras seqüencias de antologia, é um cinco estrelas e ponto. LAST RUN e CONSEQUENCE me deram a certeza de que os filmes de Hickox são autênticas aulas de como fazer "grande" cinema sem a muleta das novas tecnologias. Ou, como as novas tecnologias podem trabalhar (sem "mostrar serviço") à favor da dramaturgia do cinema.

Escrito por Carlos Reichenbach às 22h20
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MARCUS MELLO CONVIDA
UM MILAGRE: TEOREMA NÚMERO 05 !!!
Teorema número 5 vai ser lançada dia 14 de agosto, a partir das 19 horas (sem hora para acabar), no bar Muffuletta (Rua da República, 657), em Porto Alegre. A revista segue sendo editada com muito esforço e algum sacrifício pelo Núcleo de Estudos de Cinema de Porto Alegre, que é formado por Fabiano de Souza, Marcus Mello, Ivonete Pinto, Fernando Mascarello e Flávio Guirland. A edição 5, um número quase histórico em se tratando de publicações dessa natureza no RS, tem como grande atração uma longa entrevista com o diretor argentino Fernando Solanas. A capa ficou lindona - o Marlon Brando no auge de sua juventude - e foi assinada pelo Flávio Wild.

Esta edição dedica-se, principalmente, ao cinema latino-americano e em especial ao cinema argentino. A despeito de nossas diferenças no futebol e nas geladeiras, precisamos reconhecer que esta cinematografia tem mostrado um arrojo invejável, produzindo desde narrativas clássicas com apelo popular, como O Filho da Noiva, a filmes com propostas mais ousadas, como Plata Quemada ou O Pântano. Flávio Guirland e o crítico argentino Martin Alomar assinam artigo explorando esta afirmação. E o mais festejado diretor argentino comparece em uma longa entrevista à Teorema. Fernando Solanas, com a verve que lhe é peculiar, fala de seus filmes, de estética, de política, espalhando elogios e alfinetadas. Nas páginas seguintes, Marcus Mello analisa a obra de Solanas, contextualizando as influências cinematográficas que giraram em torno do retratado em mais de 40 anos de carreira. Ainda na Argentina, mas agora apenas como cenário, Ivonete Pinto investiga e aponta os paradoxos de Diários de Motocicleta, de Walter Salles. Fabiano de Souza leva nosso mapa latino para o Rio de Janeiro, onde examina O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein. Abrindo o leque para o cinema europeu, Samuel Paiva debruça-se sobre o cinema sempre transgressor de Pedro Almodóvar. Já Alfredo Manevy analisa Dogville, o último e polêmico filme de Lars von Trier. Através do texto de Fernando Mascarello, a Teorema presta tributo a Marlon Brando, falecido há pouco, e aproveita para falar sobre um de seus grandes trabalhos, Apocalypse Now. A presente edição, a propósito, é dedicada à memória deste ator único, para o qual todos os adjetivos já foram usados. Abrindo espaço, como sempre, ao cinema gaúcho, desta vez Teorema analisa os filmes de Ana Luiza Azevedo, na leitura de Liliane Froemming, sugerindo um olhar que ronda o inconsciente. Já Leo Henkin escreve sobre música e seu trabalho como compositor de trilhas para alguns dos melhores filmes produzidos no Estado. Finalmente, Eduardo Santos Mendes faz um passeio pelo mundo sonoro, chamando a atenção para o pouco espaço que o som ganha tanto na teoria do cinema, como nas telas.
Escrito por Carlos Reichenbach às 00h52
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